segunda-feira, 31 de março de 2008

Olimpismo à chinesa

Os meses que antecedem as Olimpíadas de Pequim têm sido reveladores acerca da realidade chinesa e de como o país lida com sua rápida ascensão à condição de potência mundial, interna e externamente. Da repressão no Tibete ao sigilo sobre as cerimônias de transporte da tocha olímpica, os próximos Jogos estão sendo associados, desde já, a valores como censura, arrogância, violência e mentiras. Na China comunista, esses valores são lugar comum, mas em nada se assemelham ao espírito dos Jogos Olímpicos.


Chega a ser irônico que os gregos, criadores das Olimpíadas, sejam também os inventores da democracia. A China, que investiu bilhões para ter aquela, investe muito mais para evitar esta. A cerimônia de acendimento da tocha olímpica foi transmitida pela TV estatal chinesa e vista por milhões de pessoas nos telões espalhados pelas principais cidades do país. Porém, como tudo que passa na TV por lá, com alguns minutos de atraso, tempo suficiente para que os censores possam assistir à transmissão e censurar as partes consideradas inadequadas. Foi assim que os chineses não viram, por exemplo, quando manifestantes da "Repórteres sem Fronteiras" invadiram a cerimônia para protestar contra a censura e os conflitos no Tibete. As imagens, tendo o discurso do representante chinês como fundo, foram substituídas por imagens de ruínas da Acrópole e peças de cerãmica gregas que já estavam preparadas para uma situação como essa.

O mundo viu o protesto, os chineses não. Mas será que o mundo não sabe que há censura, repressão e violação de direitor humanos na China? Sabe, mas ignora convenientemente. Discursos prometendo boicote à cerimônia de abertura dos Jogos não vão melhorar a condição dos chineses nem enfraquecer o PCC. Escreverei sobre isso daqui a pouco.

O espetáculo da censura está apenas começando. Nos próximos meses, a imprensa vai olhar cada vez mais para a China, e a resistência do PCC à livre circulação da informação vai ficar cada vez mais evidente. Já se sabe que em nenhum momento dos Jogos será permitido a qualquer emissora de TV fazer imagens, ao vivo ou em VT, da Praça da Paz Celestial. Nem a geradora oficial das imagens, que paga pelo direito.

Os líderes chineses acreditam que esse frisson da imprensa vai desaparecer assim que as Olimpíadas começarem, ofuscado por recordes, instalações moderníssimas e as imagens e histórias que só os Jogos são capazes de gerar. Eles têm certa razão. Mas nos próximos meses, e principalmente em agosto, a imprensa vai entrar na China como nunca antes e o resultado pode não ser o que o PCC espera. A China potência prepara um espetáculo para o mundo, mas ele será transmitido pela imprensa livre. Disso, eles não entendem muito.

ATUALIZAÇÃO: Depois da postagem, recebi a notícia de que o blog "No Oriente", do ex-companheiro de redação Gilberto Scofield Jr., hospedado no Globo On-line e escrito direto de Pequim, não pode mais ser acessado por quem está na China. Isso significa que a censura, antes feita sobre textos em chinês e inglês, agora se estende a outros idiomas, inclusive o português. O fenômeno está sendo batizado, com refinada ironia, de "Chinese Great Firewall". É a ciber-versão da Grande Muralha.

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