Depois do sonho e da euforia, será hora de Barak Obama assumir o comando. E, lá como cá, campanha é uma coisa, governo é outra. Sobre isso, escrevi pequenos comentários a pedido dos jornais A Gazeta e Folha Vitória. Como o espaço deles é sempre pequeno, vou tentar juntar os dois aqui. Lá vai:
Fosse apenas pelo fato de ser um negro de nome árabe a chegar à Casa Branca, a vitória de Barak Obama já seria um dos grandes momentos da História dos Estados Unidos. Porém, além da carga simbólica, o novo presidente norte-americano assumirá em um momento historicamente singular, que combina uma das mais graves crises do capitalismo, a ameaça terrorista aos Estados Unidos, a descrença de aliados históricos na liderança norte-americana e desafios em áreas estratégicas como energia e imigração. Passada a euforia da vitória, será hora de Obama mostrar que a mudança, elemento central de sua campanha, não está restrita apenas ao discurso.
Depois da eleição, a transição. Nas democracias contemporâneas, o presidente eleito forma sua equipe e escolhe representantes para trabalhar junto com o governo que deixa o cargo, a fim de não comprometer a execução das políticas públicas nem ser surpreendido após a posse. No caso de Obama, pelo menos na área econômica, a transição já é governo. Não que o novo presidente possa tomar decisões e implementar políticas. Mas diante da atual crise econômica, que atinge profundamente os Estados Unidos e repercute pelo mundo, os olhos de investidores, consumidores e governos estão agora sobre ele, à espera de idéias e nomes para reaquecer a economia e trazer confiança aos mercados mundiais. Na próxima reunião do G-20, daqui a alguns dias, em Washington, a equipe de transição estará junto com a delegação norte-americana. Até janeiro, qualquer declaração do novo presidente já é mais relevante para o mercado que de George W. Bush, com mandato, mas sem governo. Ou quase isso.
A situação de Obama é no mínimo curiosa. Embora não possa ainda tomar decisões em nome do Estado, o presidente eleito tem poder de acalmar ou tensionar os mercados. Como a crise nas bolsas mundiais é, em grande parte, uma crise de confiança, uma declaração bem feita, um gesto bem interpretado por investidores pode trazer novo ânimo ao mercado financeiro e ajudar a reverter a tendência de queda dos indicadores econômicos. Infelizmente, o contrário também pode acontecer, o que força Obama a medir cada declaração que fará daqui para frente.
Na política externa, as expectativas são de mudança em relação ao unilateralismo e ao belicismo do governo Bush. Nas primeiras horas após a vitória democrata, líderes de países que têm relações conflituosas com os Estados Unidos – como o Irã, a Venezuela e a Rússia – saudaram a eleição de Obama e acenaram com a possibilidade de entendimento entre os governos. A retirada das tropas norte-americanas do Iraque é a promessa pela qual o novo presidente deverá ser mais cobrado e não há muita margem para mudança de planos sem perda substancial de cacife político. Mas como ele mesmo lembrou, quando ainda era candidato, o combate ao terrorismo é a preocupação principal da segurança do país e o Iraque não faz parte da solução.
Os desafios internos e externos vão colocar à prova a promessa de mudança de Obama. Mas mesmo que o novo presidente não possa trazer solução rápida para questões como a crise econômica, o terrorismo e o aquecimento global, a esperança do mundo está menos sobre o que Obama vai fazer e mais sobre como vai fazer. O que se espera é a mudança na atitude norte-americana; nos valores que embasam essas atitudes; nos meios, muito mais que nos fins. O discurso da mudança é positivamente motivador: ele pode, eles podem, nós podemos.