sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Olha essa mão boba, companheiro!

O filme "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb", que em português ganhou o título de "Dr. Fantástico" é uma obra-prima que reúne dois grandes gênios do cinema: o diretor Staley Kubrick e o ator Peter Sellers. A história fala de um general norte-americano que enlouquece e lança um ataque nuclear contra União Soviética em plena Guerra Fria. Os comunistas respondem e o mundo fica à beira de um holocausto, levando a cúpula militar e política dos EUA a se reunir num bunker secreto para decidir quais serão as medidas extremas a se tomarem. O personagem que dá nome ao filme, interpretado por Sellers, é um cientista de origem alemã responsável pelo programa nuclear norte-americano, presente à reunião como um consultor do presidente. Numa das grandes sacadas de Kubrick neste filme, Strangelove tem um ligeiro cacoete: naquela atmosfera de poder e destruição, seu braço direito teima em se erguer e fazer a saudação nazista. São hilárias as cenas do cientista tentando conter o braço.


Nas democracias, os governantes desejam o poder tanto quanto em outros regimes. O que faz a diferença são as normas e instituições democráticas, sempre prontas a conter o cacoete dos governantes de buscar o poder pelo poder e governar sem freios nem receios. A imprensa os vigia, a sociedade os controla, os demais poderes da República os regulam e fiscalizam. Com idas e vindas, o processo brasileiro de redemocratização tem sido assim, marcado por momentos animadores e outros frustrantes, mas sobretudo de construção de instituições democráticas capazes de eliminar vícios e práticas de outros tempos não tão remotos.

É por isso que me assustam notícias como a que publica hoje o site Comunique-se, especializado em cobertura de assuntos da imprensa. Segundo a matéria, o presidente Lula decidiu criar uma coluna de imprensa semanal chamada "O presidente responde", que será distribuída a jornais populares, principalmente do interior do país. Ela vem se juntar ao arsenal já existente da comunicação oficial, que inclui a TV Brasil, o programa "A voz do Brasil" e o "Café com o presidente". Este último, mais a coluna agora criada, servem para nada mais que distribuir pelo país a imagem do presidente, suas opiniões, seus bordões e mensagens - por vezes não muito diretas - que tendem a atingir em cheio a população mais carente do país. É uma espécie de soft power do mandatário, que tem no Bolsa Família seu principal elemento de, digamos (e que Nye Jr. não me ouça), hard power.


Ao lançar a coluna, Lula se aproxima perigosamente de iniciativas semelhantes de outros governos de esquerda cuja inclinação democrática é, no mínimo, discutível. Como mostra a matéria do Comunique-se, Fidel tem uma famosa coluna no Granma e Chávez e Morales criaram as suas recentemente. Esse é um problema de Lula e muitos de seus ministros e assessores. Quando no poder, embora discursem a favor da democracia e na maior parte das vezes a promovam, eles são recorrentemente atacados pelo cacoete daquele braço que quer levantar, revelando um passado que já se imaginava esquecido, controlado ou adormecido. No caso deles, o braço esquerdo. Já nos acostumamos a vê-los reclamar da imprensa, do excesso de liberdade (sic) da imprensa brasileira, da prestação de contas ao Congresso, das limitações da Constituição e das decisões do STF. E já os vimos envolvidos em grampos telefônicos, operações ilícitas da Polícia Federal, quebra de sigilo bancário ilegal de cidadãos comuns, além de esquemas para compra de apoio político.

Tem ministro ali que, se for pego no susto, é capaz de gritar: "Viva la revolución!". E não se espantem se, nessa hora, o braço esquerdo do presidente teimar em levantar.

1 comentários:

Enzo Tessarolo disse...

Ótimo post, Rodrigo.

Acho que da mesma forma que Kubrick decidiu tratar a questão da guerra nuclear com certo humor (negro), fazendo pouco caso de importantes figuras da Guerra Fria, às vezes temos que usar a sátira e a paródia como armas de luta política. Só assim para convivermos em paz com algumas anomalias da nossa democracia...

Abraços,
Enzo