
Há quase dez anos fora das prioridades da política externa norte-americana, a América Latina e seus governantes esperam uma nova agenda para a região. A iniciativa da Alca foi definitivamente enterrada nos escombros do World Trade Center e nada surgiu em seu lugar. O eixo das atenções dos EUA migrou para o Oriente Médio e países que tenham ligações com terrorismo, Al-Qaeda ou programa nuclear hostil. Semelhante ao que ocorreu no período da Guerra Fria, as aspirações de desenvolvimento econômico latinoamericanas foram condenadas a segundo plano em face da ameaça à segurança do país e os interesses a ela relacionados.
Obama sorri, abraça, elege "o cara", e com isso torna o ambiente de negociação mais favorável a sua atuação. Porém, se na diplomacia os gestos têm grande valor, eles só ganham peso político quando, em seguida, vêm as ações concretas. Do contrário, reuniões de ministros ou de presidentes se transformam em meros encontros de cavalheiros, notícia para os jornais, trabalho para o cerimonial das chancelarias. E, de concreto, Obama não deve ter muito o que oferecer na Cúpula, nem nos próximos meses, talvez anos.
A crise econômica é um fator inibidor da ação norte-americana na América Latina. Com problemas internos muito graves e precisando manter o emprego dos americanos, Obama não poderá oferecer investimentos na vizinhança nem pensar em flexibilizar as políticas imigratórias. Logo, dois pontos essenciais da pauta dos governos latinoamericanos não serão concretizados em curto prazo. Sobre Cuba, o presidente norte-americano manifestou interesse num alívio nas tensões mas, sobre o embargo, nada. Ou seja, a ilha continua marginalizada nas Américas e vamos demorar algum tempo ainda para ver um presidente cubano numa reunião como a de sexta-feira.
Além disso, ainda que haja muita boa vontade do novo governo, a agenda norte-americana no mundo continua a mesma do período Bush, com agravantes. O Iraque será mesmo posto em segundo plano e as tropas, movidas para o Afeganistão, o que mantém as atenções voltadas para o Oriente. O Irã trocou cumprimentos com Obama e fala em negociações, mas não abre mão do programa nuclear. Logo, continua sendo uma ameaça. E, como se não bastasse, a Coréia do Norte resolveu mostrar as garras novamente e já exige esforço dobrado do novo perfil multilateral testado por Obama na ONU. O terrorismo, apesar de não ter havido atentados recentes, continua a ser uma ameaça silenciosa.
Para as Américas, o discurso mudou, mas a pauta não. Basta ver o artigo do vice-presidente Joe Biden publicado em jornais latinoamericanos há duas semanas, como preparação para o encontro em Trinidad e Tobago. Embora anuncie a intenção de cooperar para o desenvolvimento econômico da região, as preocupações declaradas de Biden continuam sendo o tráfico de drogas e a instabilidade política, temas de décadas anteriores. Agora também com agravante: se a Colômbia foi a grande preocupação dos anos Clinton, o problema hoje é o México, muito mais perto e mais assustador. Os EUA não permitirão que seu vizinho passe a ser classificado como "Estado falido", mas o preço disso será alto e, principalmente, essas ações devem mobilizar a atenção norte-americana em relação à América Latina.
Assim, a V Cúpula das Américas tem tudo para ser um encontro de esperanças e boa vontade diplomática. Mas, pelo menos em curto prazo, a diferença nas agendas dos participantes e de seu convidado principal continua apontando mais para o passado que para o futuro. Por enquanto, parafraseando Obama, "change has NOT come to Latin America".
4 comentários:
Que azar no comentário, hein. Justo hoje que eles estão levantando algumas restrições sobre Cuba. A esperança é a última que morre mesmo...
Continuo com esperança, Geraldo, mas espero que as medidas anunciadas hoje realmente se concretizem e que o embargo tenha fim. O anúncio de hoje foi auspicioso, mas também não é uma medida concreta. Não faz sentido negociar com a Coréia do Norte e manter embargos contra Cuba.
Sempre me pergunto se as pautas seguem à risca as vontades dos presidentes...É claro que as mudanças precisam ocorrer, tendo o governo Obama levantado a bandeira do change, mas Rodrigo, até que ponto a necessidade de mudanças consegue, de fato, reverter as diretrizes já estabelecidas por governos anteriores? Parece que teoria e prática distam cada vez mais...
Carol,
a vontade do presidente nunca é, plenamente, a vontade "dele". Muito menos em democracias. Há uma série de interesses com os quais ele tem de lidar e, embora a própria eleição dele para o lugar de Bush indique mudanças nesses interesses, muitos outros permanecem importantes de um governo para outro.
A pauta está mudando, só falta se refletir na realidade.
Postar um comentário