terça-feira, 25 de agosto de 2009

Em sono profundo...



Caros 17 leitores,

é com certa saudade antecipada que anuncio o que já se previa há tempos: o Assembleia Geral entra em recesso. Assim como fez Laurence Lessig semana passada, decidi fazer o blog hibernar por tempo indeterminado, sem saber ao cero se ele de fato voltará desse sono profundo.

Faz tempo que não tenho conseguido me dedicar apostar e manter o diálogo com vocês. Mas essa é a desculpa mais comum para blogs que desaparecem. Na verdade, esse recesso não significa meu desãnimo com a internet. Na verdade, ocorre o contrário. Tenho hoje alguns projetos paralelos na Web se desenvolvendo e vocês terão notícias deles em breve. Quem sabe o próprio Assembleia não volta renovado, explorando as redes sociais e o Twitter.

Por falar nele, o Twitter é hoje a minha mais nova diversão na Internet. Estava reticente quanto à utilidade do brinquedo, mas aos poucos vou descobrindo que a interação em 140 caracteres pode ser muito construtiva. Por isso, peço, imploro, para que vocês não me abandonem durante esse período de hibernação e me sigam no Twitter. O meu perfil lá é @rod_cerqueira.

A todos, até breve. Nessa ou em outras estações. A rede é infinita.

domingo, 2 de agosto de 2009

Cálate!

Ontem, o neocomandante Hugo Chávez foi adiante no processo de eliminação da oposição por meio da lei na Venezuela. Ordenou o fechamento de 34 emissoras de rádio no país. De novo, o argumento é que as emissoras escolhidas não estão adequadas às leis de telecomunicações venezuelanas, o que justificaria legalmente seu fechamento. Entretanto, novamente, basta olhar para a amneira como o processo ocorreu para ter certeza de que Chávez, mais uma vez, ignora o sentido de democracia na construção de seu projeto de poder.



Uma das caracterpisticas das emissoras fechadas é que a maioria delas é local. São pequenas e médias rádios que cobrem o cotidiano das cidades do interior e são, por isso, poderosas armas políticas, como acontece no Brasil. Calando essas emissoras, Chávez tenta eliminar focos de propaganda da oposição no interior, aqueles que ele classifica como traidores da nação e da revolução bolivariana. Uma exceção é a CNB, emissora de alcance nacional e, não por coincidência, resistente aos planos de poder chavistas. Desde ontem, quando foi tirada do ar, a emissora mantém sua transmissão pela internet, embora esteja enfrentando problema de streaming. Também está usando o Twitter e o Facebook.

Mas, se as emissoras estão descumprindo itens da lei de telecomunicações, o Estado não está certo em fechá-las? Não. Primeiro, porque a medida mais razoável seria notificar essas empresas, dar um prazo para que se adequasem, multá-las, se fosse o caso, e, como último recurso, recorrer ao fechamento. Segundo, a medida novamente parece ser aplicada de forma seletiva. Apenas as emissoras contrárias a Chávez estão sendo alvo de embargo. Por fim, o plano do ministério é destinar a frequência originalmente ocupada por essas emissoras a rádios ditas "populares", que certamente servirão de plataforma para a propaganda política chavista.

Enquanto isso, o Brasil continua calado.

A conta

Brasil e Paraguai chegaram, na semana passada, a um acordo de revisão de tarifas e fornecimento da energia produzida por Itaipu. No Brasil, o governo pouco falou sobre o acordo, o que fez com que a cobertura da imprensa parecesse uma campanha contra a revisão. É fato que analistas e colunistas dos principais jornais e blogs construíram, nos últimos anos, uma linha de raciocínio que enquadra as relações do Brasil com seus vizinhos como leniente, ideologizada e muitas vezes prejudicial aos interesses brasileiros. Foi assim com Morales, Chávez, Correa, e agora, Lugo. Mas é fato também que as decisões do governo têm sido tomadas sem debate, sem exposição de motivos e interesses, e com critérios para lá de discutíveis.


O caso do Paraguai é exemplo. O acordo de Itaipu era ponto inflexível na nossa relação com o Paraguai e foi com esse discurso que o ministro Celso Amorim defendeu a posição brasileira desde antes da eleição de Lugo, quando a revisão do tratado virou tema de campanha. Há dois meses, no programa Roda Viva, ele disse que não haveria mudança no tratado original, que não haveria impacto sobre os custos da energia no Brasil, e que o país ofereceria alternativas ao desenvolvimento paraguaio que não gerasse instabilidade jurídica. Agora, vamos dar a eles as linhas de transmissão que ligam a usina a Assunção, permitir a venda da energia no mercado livre brasileiro, negociar a venda a terceiros no futuro, e, em números totais, pagar cerca de R$ 360 milhões anuais pela energia, o tripo do valor atual. Se a conta de luz não subir, como diz o governo, o Tesouro terá que arcar com a despeza, ou seja, os impostos pagos pelos brasileiros servirão para cobrir o déficit. O que mudou, então, ministro Amorim?

No Brasil, a oposição e muitos colunistas de jornais atribuem as atitudes do governo Lula em relação a vizinhos como parte de uma "diplomacia companheira". As características dessa relação seriam apoiar política e financeiramente governos de esquerda sul-americanos e oferecer a eles vantagens que elevam sua popularidade doméstica, embora muitas vezes prejudiquem interesses brasileiros. A descrição se encaixa nos financiamentos externos do BNDES, no caso da Petrobras na Bolívia, nos acordos de Itaipu e outros casos menos famosos. O Itamaraty trata as críticas como politicagem doméstica, palavrório de quem não entende de diplomacia, não conhece as tradições da chancelaria brasileira ou, como gostam os diplomatas, não entende que "o tempo da imprensa é diferente do tempo da diplomacia".

Em parte, a resposta é pertinente. Porém, a globalização e a democratização do país faz da diplomacia uma atividade cada vez mais pública, o que subentende a necessidade de debate interno das questões exteriores, a participação cada vez mais atenta da imprensa e dos grupos de interesse nas negociações e, por isso, a bem-vinda prestação de contas do Itamaraty das atitudes e decisões tomadas em política externa. Foi-se o tempo em que diplomacia no Brasil era assunto de uma casta elitizada e imune aos constrangimentos políticos internos.

Resultado desses novos tempos e seu efeito sobre a recente diplomacia brasileira é a resistência do Senado a aprovar a entrada da Venezuela no Mercosul. O mesmo deve acontecer com a revisão do tratado de Itaipu. Como será necessária a ratificação do Congresso dos dois países, a oposição tentará politizar o debate no Brasil e, com a aproximação das eleições presidenciais, pode ser que o presidente Lugo não consiga entregar o que prometeu.

O caso paraguaio é o mais recente, mas não será o último. O Brasil escolheu a América do Sul como alvo prioritário de sua diplomacia e assumiu, nos últimos anos, o discurso da liderança regional, que dez anos atrás era negada veementemente. Para liderar, será preciso fazer concessões e as críticas virão a reboque. Porém, se as decisões tomadas pela chancelaria e pelo governo forem debatidas internamente, terão mais respaldo e legitimidade, condição essencial para o protagonismo político e diplomático num ambiente democrático.