
Ninguém levava a sério o processo eleitoral do Irã até que, nas últimas três semanas, o regime dos aiatolás permitiu manifestações de rua e debates acalorados na televisão, dando ao pleito ares de disputa real. No entanto, poucas horas depois de encerrada a votação, o presidente Ahmadinejad foi declarado vencedor em primeiro turno, por maioria incontestável. A maioria, digo, não o processo, já que as eleições presidenciais iranianas deste ano parecem um caso clássico de regime não-democrático que utiliza instrumentos da democracia para legitimar, interna ou externamente, suas práticas opressivas.
Existem regimes ditatoriais desavergonhados, como o caso da Coréia do Norte ou do Iraque de Saddam Hussein, que restringem qualquer forma de participação popular livre e usam a força, sobretudo militar e policial, para manter o controle. Outros, em maior ou menor grau, usam mecanismos democráticos sem, contudo, abrir mão da condução política do país, criando a falsa impressão de participação popular num processo onde as cartas são marcadas e todas as opções oferecidas agradam ao ditador. São assim boa parte dos regimes socialistas, a ditadura militar no Brasil e também o regime teocrático iraniano. Nessa direção caminham algumas democracias recentes da América do Sul. Atenção a elas.
Se o que se via antes das eleições no Irã dava a impressão de que o regime tentava ampliar a participação popular, o dia da votação e as horas seguintes foram a imagem de um regime ditatorial. Na noite da véspera, o serviço de SMS do país foi desabilitado. As emissores de TV ocidentais tiveram sua transmissão via cabo interrompidas. No momento em que escrevo esse texto, esses serviços ainda não retornaram, com exceção, ao que parece, da BBC. Os blogs hospedados no Irã, e que são escritos em árabe, turco, ou outros idiomas e dialetos, foram bloqueados. Já os hospedados fora, escritos em inglês, são basicamente a razão de eu poder escrever este post. A Internet é fantástica.
Mas o pior ainda estava por vir: o resultado das eleições. A primeira evidência de fraude foi a velocidade na divulgação do resultado. Foram contados 38 milhões de votos em duas horas, segundo o Ministério do Interior. Sem urna eletrônica!! E os resultados foram mudando conforme o tempo passava,
com os números de Ahmadinejad sendo divulgados e os de seus concorrentes, não. Pior que isso, como demonstra
o blog Tehran Bureau, a diferença entre Ahmadinejad e seu maior adversário, Mousavi, de dois para um, se manteve linear durante toda a votação. Ou seja, é como se a cada voto de Mousavi tirado da urna, dois votos de Ahmadinejad fossem retirados. Sempre. Em todas as urnas e em todas as províncias.
Quando os dados começaram a ser avaliados, a incredulidade aumentou. Os candidatos da oposições perderam em todas as regiões, mesmo em suas cidades natal, o que parece impossível no Irã, onde o fator étnico interfere diretamente na definição do voto.
Boa análise sobre o mapa eleitoral é feita pelo professor Juan Cole, que tem uma hipótese interessante para a razão de todo esse teatro eleitoral. Nos blogs iranianos e nas análises das grandes redes ocidentais, três teses tentam explicar o que acontece no Irã:
1) Ahmadinejad não venceu, daí a fraude: Segundo essa teoria, o início da apuração deu ao governo a certeza de que Mousavi venceria a eleição, o que fez o regime dos aiatolás pôr em prática seu plano de contenção, que significa divulgar um resultado maquiado e levar as forças policiais para as ruas, principalmente em Teerã,
para conter os estudantes e partidários dos reformistas.
2) Ahmadinejad venceu, com ou sem fraude: Essa versão desagrada os reformistas, mas leva em conta que Ahmadinejad pode ter vencido as eleições porque distribuiu benefícios nas últimas semanas, principalmente na periferia pobre das grandes cidades, para frear o efeito negativo sobre sua popularidade provocado pelo desemprego e a inflação (te lembra algum país?). Também leva em conta o efeito, até então desconhecido no Irã, de debates eleitorais pela TV. E, é possível que reformistas estivessem empolgados com a campanha em Teerã, assim como a mídia ocidental, sem levar em conta os números dos subúrbios e das regiões rurais. Se a hipótese for essa, evidencia-se uma divisão interna que pode ter efeitos políticos devastadores no futuro.
3) Revolução de veludo às avessas: "Revolução de veludo" foi como ficaram conhecidos os movimentos que derrubaram governos ditatoriais nas antigas repúblicas soviéticas durante os anos 90. Elas se deram após eleições manipuladas e seu estopim foi justamente a contestação dos resultados. No caso do Irã, a revolução viria ao contrário. Um movimento comandado pelos próprios clérigos do Conselho de Guardiães aproveitaria a explosão de revolta na capital e proporia mudanças, com substituição de Ahmadinejad e, talvez, do líder supremo Ali Khamenei. Muda tudo para não mudar nada. Essa é a tese defendida por
Sheema Kalbasi.
Em qualquer dos três casos, o efeito dos resultados já era esperado. Os vencedores, apáticos. Os derrotados, nas ruas. Não se pode supor que os aiatolás sejam tão ingênuos a ponto de pensar que manipulariam o resultado sem protestos. A questão é: se o protesto já era esperado, a que fins ele serve?